747 parte 1

Olá turma do blog,
Tudo bem?

Este capítulo me trás alívio, parece um escape. Desde o dia que saí com minha sentença dada pela juíza, “tratamento ou Febem”, tinham passado quase trinta dias.

Eu saí da mansão do meu tio no Le Village Blanc para o aeroporto, mas antes passei em minha casa para buscar meu diário. O quadro era de morte, tudo muito triste. Alguns móveis quebrados e um clima de tristeza. Abri a porta do meu quarto, meus olhos percorreram todo o ambiente. Não havia vida dentro daquelas paredes, por mais que eu abrisse as janelas ele continuaria escuro e tenebroso. Ele foi testemunha da minha drogadição. Eu me drogava muito naquele quarto, agora eu saía daquele pequeno espaço, para ir para um outro ambiente onde serviria de morada por algum tempo de minha vida.

Peguei meu diário e saí para o carro, em direção ao aeroporto Eduardo Gomes, minha vida começava a  seguir um novo rumo. Tinha um avião na pista me esperando para me levar ao tratamento.

Depois de passar pela parte burocrática da documentação, fui entregue para as pessoas responsáveis. Naquele momento em diante a ficha começou a cair. Contudo eu ainda tinha minha mãe ao meu lado, mas quando ela entregou as papeladas para aqueles oficiais de justiça que estavam me conduzindo até o avião, deu um frio na barriga. A partir daquele momento eu tinha que me virar sozinha. Abracei minha mãe tentando esconder as lágrimas, fui me afastando dela até sumir no saguão. O  comandante me deu boas vindas, eu só balancei com a cabeça. Sentei em minha poltrona, com um nó na garganta eu queria explodir em choro. Sempre que choro costumo soltar minha dor, mas naquele momento não podia fazer isso. Tive que me conter e deixar as lágrimas rolarem lentamente, assim como o avião lentamente dava os primeiros passos para ganhar força para a decolagem.


Era a segunda vez que eu andava de avião, lembra da primeira vez em que andei de avião? Você pode  descrever  quando foi que andei pela primeira vez? E porque agora estava novamente entrando no avião?

Sozinha em minha poltrona  eu chorava muito. O  avião de  quase trezentos lugares estava praticamente vazio, parecia que era um voo só para mim. O comissário, um moço muito bonito sentou ao meu lado e apertando minhas mãos veio me consolar. Perguntando qual o motivo de tantas lágrimas, eu disse que estava com saudades de minha família, só isso. Ele retrucou e disse-me que  era hora de romper com o cordão umbilical. Achei estranho aquele conselho dele, talvez ele estivesse querendo dizer que a partir daquele momento eu tinha que saber viver só. Ele pegou um lenço e escreveu seu nome e telefone e disse  que se eu precisasse dele, era só ligar. Eu agradeci sua gentileza. Seria o boto mais uma vez tentando me desvirtuar do caminho da recuperação? Achei muito esquisita aquela atitude do comissário, mas prefiro pensar que ele estava sendo só gentil com uma garota solitária que se derramava em lágrimas dentro de um avião. Antes dele levantar da poltrona ao lado, apertou minhas mãos com um sorriso lindo, deixando em minhas mãos o lenço de papel com seu nome e endereço, caso eu precisasse de alguma coisa em Brasília, era só ligar para ele. Se ele soubesse que eu ia para uma clínica sem direito a conversar com estranhos, exceto minha família, não teria feito aquilo. No caminho para o tratamento a última tentação sempre aparece para nos desvirtuar da cura.

A viagem serviu para eu refletir em meu passado. Lembrei muito do Gustavo e como tudo começou… lembrei de quando ele me beijou pela primeira vez, debaixo de chuva. Foi ali que comecei a me apaixonar  perdidamente por ele. Mas nunca pude crer que aquele beijo continha o “Doce veneno” da droga. Caí numa arapuca, agora tinha que tentar sair dela. Lembrei do Hernan da caneta prata, se tivesse aceitado a caneta, aquela história não estava sendo escrita. Lembrei da Lisa quando cortou minha saia, da turma da escola, tive saudade de voltar a ter uma vida normal. Lembrei da arma em minhas mãos naquela noite de terror, e até mesmo o Puff  me veio a memória para eu chorar ainda mais diante dos meus erros. Lembrei  do quarto onde fiquei trancada antes de embarcar e do último abraço que dei em minha mãe. Meu  Deus… quantas coisas de ruins eu vinha passando, minha vida tinha começado bem lá no Amazonas no meu mundo cor de verde, mas de repente virou uma negridão. Eu ainda caminhava no escuro sem saber como seria minha vida em Brasília. Dentro do avião o ar condicionado estava estupidamente gelado. Eu tremia de frio e medo sem saber o que me aguardava. Pobre garota, tão sonhadora, alegre e meiga, agora teria que enfrentar talvez a etapa mais difícil de sua vida que  era o tratamento de dependência química.

Mais ou menos onze e meia da manhã, o avião entrava nos céus brasiliense em direção ao aeroporto. Lá de cima dava para ver os prédios deitados e o prédio do Congresso Nacional, o qual eu via somente pela televisão.

Eu saí do avião acompanhada da comissária que trazia em suas mãos uma pasta com documentos, nela continha meu histórico de conduta. Gosto muito de observar e refletir em cenas comuns do dia a dia. Vi pessoas na porta do desembarque felizes, com um sorriso largo a espera de seus queridos, ao encontrar-se abraços apertados e cheios de amor eram exibidos. Eu achei linda a cena e fiquei olhando como se fosse um filme de família. A maioria que chegava tinha alguém esperando para abraçar. Quanto a mim, ningúem me esperava, não tinham braços para me abraçar apertado, eu era uma desconhecida  na capital da nação, indo em busca de um tratamento. Os monitores vieram ao meu encontro e estenderam as mãos num gesto frio e formal, comprimentando-me e chamando pelo meu nome. Eles olharam para uma folha branca e disseram:

– Laila Oliveira Silva?

– Sim! respondi friamente.

Eles retrucaram:

– Seja bem vinda!

Eu os segui até o estacionamento e fomos para o escritório do Desafio Jovem, na SCLN 407 bloco D loja 60.

No escritório minhas malas foram revistadas e eu tive que ficar nua e examinada para ver se de fato não portava nenhum tipo de droga. Foi humilhante aquela situação, mas tive que me submeter as normas do centro de tratamento.

Depois da inspeção fiquei sentada no sofá muitas e muitas horas a espera da van que nos levaria ao rancho da paz. Não parava de chegar jovens de todos os lugares do Brasil. Depois da inspeção eles vinham e iam se juntando, enchendo a sala de espera. Novamente comecei a observar a cena, a maioria estava acompanhada do pai ou mãe, eu era a única que estava só. Notei o olhar dos pais, parecia que eles estavam deixando seus filhos em um cemitério, o silêncio era cruel, se caisse um algodão no chão dava para perceber a queda. Nós nos olhavamos, mas quando nossos olhares se cruzavam abaixavamos a cabeça envergonhados um do outro. Dava vontade de perguntar “e aí tudo beleza? De onde você vem? O que você aprontou para vim parar aqui?” Mas percebi que era bobagem. Todos nós eramos jovens e adolescentes vítimas do disfarce irresistível das drogas, em busca do tratamento.

4 Respostas para “747 parte 1”

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